Crianças Difíceis/ Como agir com seus comportamentos

A Criança Difícil

Adaptação do Capítulo 16 do Livro “A Ética na Educação Infantil”.

As crianças pequenas ainda não construíram um sistema próprio e estável de sentimentos, interesses, valores e reações sociais. É normal que elas tenham dificuldades sociais provenientes de sua incapacidade para assumir a perspectiva de outros e para pensar além da superfície observável dos eventos.
Os professores e pais coercivos podem criar uma criança difícil ao frustrar sua necessidade de ser ativa.

Criança difícil é aquela que coloca repetidamente em perigo a si mesma ou a outros ou que perturba regularmente as atividades de outros por um comportamento descuidado ou agressivo. O resultado em sala de aula são confrontações diárias, colegas aborrecidos e freqüentes interrupções nas atividades planejadas.

Rejeição e desaprovação=sentimento de inferioridade e má-vontade para com os outros.

Poucos momentos para compartilhar experiências positivas com os outros= pouca base para vínculo com professor e colegas


Enfoque Behaviorista:

Enfatiza controle do comportamento da criança pelo adulto.

Baseado em recompensas e punições. Por exemplo, um adesivo para quem se comporta ou seu nome escrito no coração da lousa.

Críticas ao enfoque behaviorista:

  1. Não desenvolve a autonomia do individuo, mas reforça a heteronomia. Ou seja, ele só se comporta se tem alguém regulando seu comportamento.

  1. A criança sempre espera uma recompensa e não faz nada por estar consciente de seus deveres e direitos.

  1. Não leva em conta as construções que a criança pode fazer e rotula, acredita que os estímulos ambientais moldam e controlam as respostas do comportamento do indivíduo.

  1. O professor preocupa-se em estruturar as pressões na sala de aula para evocar a mudança no comportamento, sem uma atenção particular às causas e origens do mau comportamento.

  1. Não funciona em longo prazo, pois não se fundamenta na consciência do bom comportamento.


  1. Estabelece entre o professor e a criança uma luta de poder, que ignora a motivação da criança para comportar-se mal. O professor não tenta compreender as causas do mau comportamento, promovendo estratégias construir novas motivações e novos comportamentos.




Para Piaget todo comportamento tem finalidade e significado. Então, todo mau comportamento tem finalidade e significado e devemos nos perguntar, “por que esta criança se comporta mal?”.


Toda criança nasce com um conjunto de necessidades e impulsos que sua natureza humana as compele em satisfazer. Estas necessidades incluem aquelas necessárias à sobrevivência física, ao conforto e a aprovação social. Piaget fala sobre “a vontade de exercer poder” e aos sentimentos de inferioridade de quem não consegue. A luta para ter importância, segundo Adler, é um esforço de toda vida para obter reconhecimento e aceitação.
Então, uma criança rejeitada pelo grupo pode tornar-se mal comportada para chamar atenção sobre si e desta forma aumentar suas sensações de importância individual.

A aprovação ocorre em um contexto social quando um indivíduo provoca uma resposta de outro ser humano. É importante saber que as respostas não precisam ser positivas para significarem aprovação. Qualquer reação que prove a existência do indivíduo no grupo satisfaz suas necessidades de reconhecimento, quando o adulto responde negativamente e com muita emoção a comportamentos indesejados pode estar aprovando, sem intenção, a criança que recebe pouco reconhecimento.
Por exemplo, a criança que apanha do pai e só assim tem sua atenção pode achar (inconscientemente) que a violência é um meio efetivo de obter aprovação social.

O comportamento surge de um sistema particular de crenças, formado desde muito cedo na vida. (Adler)


DIRETRIZES PARA LIDAR COM A CRIANÇA DIFÍCIL


  1. Respeitar, valorizar e acreditar na criança, superando a reação de rejeição do grupo.
  2. Reconhecer a necessidade subjacente de formar conexões e vínculos com outros e sua capacidade potencial para superar problemas.
  3. Quando a criança testar os limites do professor as respostas devem ser assertivas, pois ela é capaz de sentir qualquer sinal de hesitação.
  4. Não reagir com rejeição ou deixar de aprovar, negando os conflitos emocionais da criança, pois fortalecerá mais ainda o sistema de crenças da criança difícil.
  5. Não duvidar da capacidade da criança de resolver seus conflitos e cooperar com os outros, pois com esta dúvida ela se conscientizará de sua inadequação.
  6. Comunicar respeito, aprovação e fé na criança, reconhecendo seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.
  7. Aceitar o que ela diz, sente e faz escutar e responder.
  8. Prestar atenção na criança. Reconhecer com contato ocular direto ou com um simples gesto de cabeça, ou um “sim” ou “entendo”...
  9. Usar a “escuta reflexiva”, repetindo o que a criança disse, tentando entender seus pensamentos e sentimentos, sem julgamentos ou críticas. Isto não quer dizer concordar com o que foi dito.
  10. Marcar encontros com a criança para expressar seus sentimentos, mostrando seu carinho e sua preocupação.

A criança difícil é difícil de amar, pois seus comportamentos são aleatórios.

Compreenda o Sistema Interno de Crenças da Criança que tem um mau comportamento:

1)      Avalie o conceito que a criança tem de si mesma, dos demais, e seus padrões de aproximação e resposta a outros.
      Autoconfiança ou falta de confiança? Competente ou incompetente? Vê os outros como objetos, pessoas a quem controlar ou a quem compartilhar? Espera respostas positivas ou negativas? Como reage quando contrariada? O que faz para conseguir o que quer? É resistente? Submissa? Agressiva ou rebelde?

2)      Observe as reações e respostas emocionais ao comportamento da criança.
       Sob que crença a criança está agindo?
       Caso o professor se sinta inadequado e frustrado, pode ser que ela opere sobre a crença de sua própria inadequação. Este é um padrão que se chama “passivo-agressivo” e reflete um padrão inconsciente: “Para que eu tenha importância devo ser mais poderosos que os outros. Já que não posso vencer em um conflito com uma figura de autoridade, então não posso ser mais poderoso em uma confrontação direta, mas posso ser mais poderosos em evitar que o outro vença. Não cooperando ela frustra os planos do professor.” Ou aquela que opera na crença que “Eu existo quando tenho a atenção dos outros” e busca atenção interrompendo atividades de outros, “fazendo palhaçada”, etc. O sistema implícito de crenças de cada criança é tão imprevisível quanto sua herança genética e experiência pessoal, estes exemplos representam, uma fração das possíveis razões, mas tarefa de um professor sensível sondar o que tem significado para cada criança.

3)      Entreviste a criança difícil.
       Uma estratégia importante é conversar com a criança para compreender suas crenças e seu comportamento. Após um episódio perturbador pedir que a criança fale de seus sentimentos e que explique o mau comportamento, é útil perguntar sobre o que a levou a se comportar daquela forma. O objetivo é ajudar a criança a reconhecer sentimentos e identificar reações emocionais e comportamentais que seguem um padrão.


Desafie e Confronte o sistema de crença implícitas da criança:

1)      Ajude a criança a considerar outra perspectiva.
       Pedir que ela pensasse como os ouros pensam, é apoiar sua construção de visões alternativas de determinado evento.
       Encorajar o grupo para expressar seus sentimentos aberta e honestamente, assim ela será confrontada com os aspectos hostis do mau comportamento.
      Orientar feedback como preencher frases do tipo “Quando você ___________, eu sinto _________ porque_________”. Fazer cartazes com as frases adequadas em cartolina e pedir para que as crianças expliquem sem nomear os envolvidos.
      Pedir que refaçam a afirmação de sentimentos. Por exemplo, quando alguém diz: “Eu odeio você porque você me empurrou”. O professor pode incentivar um repertório mais amplo de emoções justamente com um vocabulário de sentimentos. O Fato de vivenciar e identificar a expressão clara de emoções leva a criança difícil a reconhecer os efeitos de seu comportamento.
       Ajudar a criança a reconhecer e rotular sentimentos que não são conscientes. Desafiando-a perceber-se quando quer chamar a atenção, por exemplo.

2)      Ajude a criança a reconstruir sentimentos e padrões de reação a outros.
       O objetivo do professor é ajudar a criança a conscientizar-se de seus sentimentos e padrões de reação, bem como oferecer modos alternativos de sentir e reagir. Por exemplo, para uma criança que sempre é a última a chegar à fila, a professora pode oferecer a ela a sugestão de ser sempre a última para ter certeza que todos já chegaram à fila. Esta intervenção paradoxal é efetiva quando traz a consciência da criança sua intenção de ser a última a fim de controlar o grupo e chamar a atenção. Com a sugestão a professora ofereceu um meio direto e aceitável de controle. A criança pode optar por continuar a comportar-se deste modo de acordo com a intenção consciente.

3)      Saliente as conseqüências naturais e lógicas dos padrões de reações da criança aos outros.
      Ver capítulo 10 do mesmo livro.


Oriente a Criança na reconstrução de sentimentos e padrões de reação a outros


1)      Ajude a criança a estabelecer relações com outras de formas mais valorizadas e ajude os outros a terem experiências com a criança difícil de formas valorizadas.
      Isto não é fácil, mas é possível. Trabalhar para valorizar algo da criança (um jogo ou livro que ela traga uma sugestão que faça etc.) e refazer os conceitos e padrões estabelecidos pelo grupo. Sugerir que o grupo mostre como apreciaram a novidade que ela trouxe ou como foi boa sua sugestão. Pensar em modos de construir elos de amizade pela análise das qualidades da criança difícil. À medida que a criança difícil começa a ter experiências mais positivas com os outros é possível que também comece a vincular novos sentimentos positivos a certas interações com outros.

2)      Ajude a criança a construir e conservar novos valores pelo exercício da vontade.
      O desafio do professor é ajudar para que a criança tenha, repetidamente, essas experiências e, assim, possa construir os novos valores como algo permanente. Isto ocorre com tropeços e gradualmente ela os consolidará. É importante que a criança comece a exercitar a vontade, que faça escolhas conscientes nas suas relações com os outros.

3)      Ajude a criança a construir sentimentos de justiça e cuidado pelos outros.
     Promover o desenvolvimento sócio-moral das crianças. Trabalhar deste modo com todas as crianças. Estes princípios também são úteis para lidar com qualquer criança em momentos difíceis.
    Algumas crianças difíceis precisam de auxílio terapêutico e familiar. O professor não pode ficar tão consumido com o trabalho com a criança difícil a ponto de negligenciar as outras crianças.




DeVries, Rheta
A ética na educação infantil: o ambiente sócio - moral na escola.
 Porto Alegre: Artes Médicas, 1998











CRIANÇAS DIFÍCEIS: O QUE FAZER?



Muito se fala hoje em falta ou ausência de limites e crianças difíceis.
Nas escolas, essas questões são bastante pontuadas com ênfase, pois 
esbarram na indisciplina.
Nós educadores buscamos justificar os porquês de alguns comportamentos 
que julgamos pelo nosso senso comum como estranhos. O resultado é 
previsto: nem sempre temos respostas.
A indisciplina se mistura com a falta de limites. A falta de limites se funde 
com desrespeito; desobediência; não aprendizado... caos....
Nesse contexto, a psicologia abraçou a questão da indisciplina, buscando 
sanar alguns problemas e manifestações com tratamentos terapêuticos.
Alguns comportamentos em graus mais elevados, se constituíram 
transtornos, sendo necessária a indicação de tratamento psicoterapêutico e 
medicamentoso.
A neurologia também busca entender a indisciplina, a falta de limites e o 
não aprendizado. Sob sua ótica, o aprendizado tem muito mais a ver com o 
prazer do que com a disciplina: assim se aprende o que é interessante e 
agradável e não se deixa de aprender por falta limites ou pela indisciplina 
por si.
Educadora em casa com meus dois filhos adolescentes, eu também não 
escapo dos limites.
Sinto que a imposição dos limites apesar de árdua é absolutamente 
necessária para o bem estar dos meus filhos e do mundo com o qual eles 
vão se relacionar.
O adolescente por si quer satisfazer suas necessidades de imediato, resiste 
às regras  como forma de contestar o mundo, buscando mecanismos para 
burlá-las. Todo esse  “pacote” exige de nós pais- educadores uma dose 
fenomenal de paciência, perseverança, atenção, persistência, pois a mesma 
mensagem poderá ter de ser repetida inúmera vezes, para que o adolescente 
a coloque em prática.
A firmeza, a coerência, o amor, a consistência nas nossas ações que 
precisam ser pontuais dão sustentação ao encaminhamento de limites.A firmeza, a coerência, o amor, a consistência nas nossas ações que 
precisam ser pontuais dão sustentação ao encaminhamento de limites.
Na educação formal, a aproximação dos conteúdos com as experiências 
individuais dos alunos trazem resultados mais prazerosos.
Crianças difíceis de lidar sempre tive e não as vejo como problema, mas 
sim, como um  grande e belo desafio.
O importante na relação com a criança ou adolescente é respeitá-la e se 
fazer respeitar. Ouvir e ensiná-la a ouvir os outros.
Partilhar experiências, trocar conhecimentos, dar parâmetros para que se 
sintam seguros. Permitir sem ser permissivo.
É fundamental que os pais ou responsáveis pela criança comecem a 
discipliná-la em casa, ficando a escola responsável por acrescentar outros 
valores,  pois 
sabemos que nenhuma pessoa é educada de uma hora para outra.        
Assim, a formação educacional é um processo contínuo e alguns requisitos 
como a paciência, a  troca, o carinho, a atenção  são fundamentais.
Durante todo esse meu caminhar educando, passei a me ater e a respeitar 
esses requisitos fundamentais. A grande surpresa foi para mim mesma, pois 
cresci e me descobri uma pessoa sensível, preocupada com o outro e com a 
qualidade das relações estabelecidas nessa trajetória.
Como conseqüência, me transformei e mudei minha prática educativa em 
casa, no convívio familiar; na sociedade e no meu fazer educativo.
Birras infantis, choramingos, gritos, atritos, confrontos, passaram a ser 
vistos por mim de  outra forma. Eu sempre me questionava: Por que tal 
criança está fazendo aquela atitude? Com que intenção? Já sabia então que 
criança não é aquela criatura sublimada e boa descrita nas histórias.
Agora eu as via de modo real e não mais ideal.
Tendo esse entendimento, minha postura frente a ela era outra: de 
indivíduo para indivíduo e todo com os mesmos direitos e os mesmos 
deveres, guardadas as proporções de idade e maturidade, é claro...
Se a criança desobedecia, era preciso entender aquele contexto e não aquela 
reação pontual, fragmentada. E como faria isso daqui para frente?
Com toda franqueza foi um trabalho árduo, que levou anos e muito 
envolvimento com as crianças e famílias. Só as deixando falar, dando vez e 
voz eu poderia  entender e atuar em parceria com as famílias, buscando 
formas mais acertivas de “resgatar” aquelas crianças.
Hoje entendo que a indisciplina é o termômetro de uma relação É 
evidenciada quando há uma quebra de contratos, e quando esse se rompeacaba a credibilidade e a legitimação no outro, o prazer nos desafios e nas 
novas buscas.
Lembro que não há regras, nem fórmulas para tratar um conflito. O 
importante é não temer, tomar uma posição concreta, ser verdadeiro, ouvir, 
respeitar o outro, se posicionar e evitar que o conflito se transforme em 
confronto: esse sim é difícil de se transpor e nada acrescenta a ninguém.

AUTORA: MÔNICA A. P. C. LUZ
 

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